Os concurseiros

Depois de comer muita poeira em Itapoã, distante 30 quilômetros do Palácio do Planalto, relembro o comentário de um amigo que me deu carona até o Lago Norte: 90% da população de Brasília desconhecem a situação das 40 mil famílias que habitam aquele bolsão de pobreza. Sem asfalto, as ruas esburacadas não permitem a fluidez do trânsito. Andar por aquelas bandas é como participar de um rali. Sem rede de esgotos, sem infra-estrutura, o lugar mostra o abandono do poder público. Claro que ontem (sábado) os moradores receberam promessa de que no próximo tudo será diferente.

Mesmo com o cenário de miséria, enxerguei felicidade nos semblantes dos moradores. Meninos e meninas que ficam satisfeitos com bicicletas caindo aos pedaços e bonecas maltrapilhas. Ou seja, com muito pouco são felizes. E na fluidez do pensamento, viajo ao Estado do Maranhão, onde passei três meses também comendo muita poeira. E concluo: quem conhece o interior maranhense jamais poderia se assustar com Itapoã. Mas este lugar candango fica bem perto dos poderosos. Se no Itapoá é assim, imagine a situação em outros estados. No Maranhão é assim, ou melhor, é aqui.

Lá se realizou mais uma edição da Ação Global. Voluntários deram aos moradores um dia de cidadania. Das Dores (foto acima), uma mineira que habita um terreno de 128 metros quadrados era o símbolo da felicidade. Ela trabalha como faxineira exatamente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), freqüentado por muitos políticos que deveriam ter os olhos voltados para ela. Das Dores teve o sofrimento amenizado. No terreno, sua casa caia aos pedaços, mas foi recuperada e de agora em diante ela poderá dormir com mais tranqüilidade na companhia dos cinco filhos.

Para que a Ação Global tivesse continuidade seria importante que os moradores do Plano Piloto, ou do Lago Sul, ou do Lago Norte – vizinho de Das Dores – pudessem visitar Itapoã. Pensem no Itapoã, rezem pelo Itapoã. Itapoã é logo ali. Não precisa levar brinquedos caros, roupas da moda. Levem carinho. Levem amizade. Todos notarão que a população ficará mais feliz.

Neste domingo, volto as atenções para um outro tema bastante recorrente na capital federal: os concursos públicos. A indústria dos concursos é a que mais cresce no Planalto Central. Por dois motivos: segurança no trabalho (leia-se estabilidade) e pagamento de salários em dia (inclusive com todos os direitos que o regime público permite).

É bastante comum visitar uma empresa privada ou instituição de classe patronal e encontrar um trabalhador da iniciativa privada de posse de apostilas. O foco é um só: passar nos concursos e obter a tão sonhada estabilidade no emprego. Então reflito: não seria mais prudente investir no aperfeiçoamento profissional privado. Altos salários e lugar cativo aparecem como resposta. Ou seja, o  cidadão quer virar um barnabé. Sabe que a partir do momento em que entra para a vida pública, dificilmente voltará para a privada.

Por isso, os cursinhos estão lotados. As livrarias e bancas que vendem as apostilas faturam horrores. As empresas especializadas em aplicar as provas faturam milhões de reais. Se você não passar em primeiro lugar, tem a chance que ficar no cadastro de reserva.   E como num time de futebol: onze jogadores são escalados. Os que permanecem na reserva torcem para que aquele companheiro jogue mal ou tenha uma contusão. Assim, poderá substituí-lo.

O domingo também é de futebol. Como foi ontem, sábado, com a vitória do Corinthians aqui em Brasília contra o Gama (time local). E nesse início de Brasileirão esquentam as apostas nos clubes com chances de sagrar-se campeão nacional. Quatro estão no topo da preferência: Palmeiras, Internacional, Cruzeiro e Fluminense. E o resultado somente será conhecido em dezembro. Até lá, muita bola vai rolar pelos gramados do país.

O dia também será de show. Desta vez, na Esplanada dos Ministérios, duas grandes atrações prometem muito barulho: Ivete Sangalo e Zezé di Camargo e Luciano se apresentam para o delírio dos fãs. Produção de uma emissora de rádio.

Neste começo da manhã volto o meu pensamento para Das Dores – aquela que traz a dor no nome, mas é muito feliz. Lembro da canção ‘Faroeste caboclo” do Legião Urbana: Quando é que o senhor ministro (serve para todos e para todas as autoridades) vai ajudar?

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