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Ingrid Betancourt e as Farc

julho 4, 2008
A ex-senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt continua a dominar o noticiário no Brasil e mundo afora. Hoje, Betancourt se encontra com o presidente da França, Nicolas Sarkozi, e Paris vive um clima de euforia em função da libertação da ex-senadora. Ontem à noite, o Jornal Nacional mostrou manifestação do povo parisiense em frente à sede da prefeitura onde há um enorme out-door com a imagem de Betancourt no cativeiro. Só que desta vez acrescentaram a palavra libertada.
E a leitura do material produzido pelos jornais, revistas e sítios tem sido rica e esclarecedora. Porém, quando fixo os olhos naquela imagem do out-door em Paris, a mesma que ganhou o mundo quando da libertação de Clara Rojas e outras pessoas em poder da guerrilha na selva colombiana, e a comparo com as imagens de Betancourt livre, busco entender aquilo que deve ter sido questionado por outros milhões de pessoas: Betancourt não estava doente? Autoridades e familiares disseram à época que ela tinha poucas chances de sobrevivência se continuasse em poder das Farc? Seria uma jogada para manter a mobilização? Isso deve ser esclarecido mais adiante, ou nas entrelinhas das reportagens extensas, ou em declaração da própria Betancourt a um jornalista bisbilhoteiro.
Voltemos ao ponto central dessa história que começa na campanha à Presidente da Colômbia em 2002. Naquela ocasião, a senadora Bitancourt era uma forte candidata ao cargo. De idéias inovadoras. Destemida. Empunhou a bandeira da moralização. Álvaro Uribe, que veio a ganhar a eleição, era outro candidato. Então, em plena campanha, os homens das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) seqüestraram Ingrid Betancourt.
O dia 23 de fevereiro de 2002 é bastante emblemático. Com 40 anos e agora em cativeiro no meio da selva, Betancourt saía da disputa. E naquele mesmo ano, Uribe veio a se eleger presidente da Colômbia. Não estou aqui fazendo qualquer ilação entre o seqüestro da então senadora com a eleição de Uribe. Mas este fato ainda precisa ser mais bem esclarecido.
Naquela mesma data, desta vez, na França, Jacques Chirac se consolidava em mais um mandato. Ele governou o país de 1997 a 2007. Saiu de cena no ano passado e transferiu a faixa para o eleito Nicolas Sarkozi. E quem era Sarkozi antes disso tudo: ministro do Interior da França. Outro personagem apareceu em cena nestes últimos anos de Chirac. Exatamente no hiato do seqüestro de Betancourt – período em que a ex-senadora esteve no cativeiro.
Trata-se de Dominique Villepin, então chanceler francês. O escolhido – segundo se sabe – entrou no circuito para libertar a franco-colombiana. Em seu currículo, o fato ter um “caso” com Ingrid quando era professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris. E a família Betancourt sempre teve influência política. Astrid, irmã de Ingrid, era casada com o embaixador da França na Colômbia.
Nos bastidores do governo Chirac tramou-se uma operação para libertar Betancourt em plena selva amazônica. Com o sinal verde do governo francês, uma tropa de elite rumou para aquela região. Fez pouso em Manaus. Só não contava serem descobertos. Criou-se, então, uma crise diplomática. O governo brasileiro repudiou a operação. Descobertos na capital amazonense, a tropa de Chirac foi convidada a deixar o país. E a revista Carta Capital deu com exclusividade uma reportagem de Bob Fernandes com detalhes da operação que virou um fiasco.
E quem estava por trás da história? Há dicas de que seria Nicolas Sarkozy o vazador das informações. Ele teria motivos para o ato? Sim. Enquanto articulava sua candidatura à sucessão de Chirac, Sarkozy pensou nos loros que obteria se fosse o libertador de Bitancourt. Faz todo sentido. Hoje, Sarkozy recebe a ex-senadora e toda a família com pompa e tudo que tem direito.
Operação de resgate
A operação de resgate de Betancourt, três americanos e 11 militares colombiano é digna de filme de Hollywood. Pelo que foi contado até então, as Forças Armadas da Colômbia conseguiram infiltrar militares no núcleo das Farc que retinha os reféns. Isso teria ocorrido em fevereiro de 2007. O trabalho desse grupo foi justamente aglutinar os seqüestrados.
O que se sabe agora é que os Estados Unidos e Israel ajudaram no treinamento desta operação. A Colômbia teria pagado US$ 10 milhões a uma empresa privada de segurança israelense para tornar os militares colombianos mais capazes. Isso tudo é revelado por um general que comandou o serviço de inteligência israelense.
Tudo combinado. John McCain seguiu para a Colômbia. Um helicóptero descaracterizado pousou nas imediações onde estavam os guerrilheiros e os seqüestrados. Antes, o comando de terra havia convencido o algoz César – que era responsável pelos reféns no cativeiro – a transferir o grupo para outra região com o argumento de que o grupo seria apresentado ao novo líder das Farc Alfonso Cano.
Quando entrou no helicóptero, César foi rendido e o grupo – inclusive Betancourt – libertado. Ela – a ex-senadora – disse que a aeronave quase caiu. Todos comemoraram. Alguns minutos antes, quando verificaram que os “camuflados” de Uribe vestiam camisetas com foto estampada de Ernesto Che Guevara, o pensamento era de que seriam trucidados. Mas não foi bem isso que ocorreu.
E analistas políticos, jornalistas e outros especialistas no tema indagam inclusive sobre se houve certa conivência do líder Alfonso Cano para a Operação Xeque. E por qual razão o candidato de George W. Bush passeava pela Colômbia no mesmo dia da libertado dos seqüestrados? Assessores de McCain se apressaram em informar que tudo não passou de uma coincidência.
Essa é mais uma questão que precisa ser esclarecida. As lideranças da América do Sul – leia-se Hugo Chávez (Venezuela), Rafael Correa (Equador) e Evo Morales (Bolívia) – atacaram Uribe por causa das estreitas relações com a Casa Branca. Então, seria justo convidar o candidato de Bush para a festa. Ou seria mesmo uma coincidência? Confesso que não acredito em papai Noel, nem em duendes…
Outro lado – o etnólogo
 
A cobertura do jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira (4 de julho) se diferencia dos demais jornais apenas pelo artigo de Gilles Lapouge, correspondente em Paris. Ele nos conta que na semana passada o professor André-Marcel d`Ans pintou outro retrato de Ingrid Betancourt.
Na revista La Quinzaine Littéraire, o etnólogo baixou o pau na ex-senadora. Para começo de conversa, d´Ans diz que ela “era só uma boa vida”. Filha do diretor-adjunto da UNESCO em Paris, Betancourt passou “longos anos de opulência em residências suntuosas” e para os seus filhos “estudos em francês nos estabelecimentos freqüentados pelo jet set”.
E prossegue o artigo do professor francês: “Ela mergulha na política, na forma de uma esquerdista dândi, disposta a bater no peito, num gesto de mea culpa, desde que o peito não fosse o dela”. Ele trata – ou destila veneno – no que chamou de viagem a Paris para o lançamento da biografia La Rage au Coeur (A raiva do coração), que Lionel Duroy teria escrito para Bitancourt. A viagem ocorreu em dezembro, a seis meses da eleição e a dois meses de seu seqüestro.
A ira de André-Marcel d’Ans é o outro lado dessa história. Que outros casos possam ser narrados.
Pelos simpatizantes, ou pelos opositores (como é o caso do professor). O certo mesmo é que Betancourt ganhou força política. Prestígio internacional. Se conseguir o objetivo de consolidar a paz e a deposição de armas pelos integrantes das Farc será séria candidata ao Prêmio Nobel, no fim do ano, em Oslo.
Enquanto isso, fica a minha torcida para que ela escreva um livro e que, a partir disso, os produtores cinematográficos decidam transformar o assunto num belo filme. Vale aguardar e conferir.

O Fluminense e a Justiça do Trabalho

julho 4, 2008

Dona Creusa, a minha mãe, uma pacata senhora que reside no interior norte do Estado do Rio, não entende de futebol. Ela é como a jornalista Cora Rónai, de O Globo, que esteve pela primeira vez no Maracanã para assistir ao jogo Fluminense e LDU, aquela que teria sido a mais importante partida de futebol da história do Fluzão, capaz de colocar os jogadores e a comissão técnica na história do Tricolor das Laranjeiras. Porém, não foi bem assim.

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