Retorno às raízes

Santo Antônio de Pádua fica no interior do Estado do Rio. Situa-se na divisa com Minas Gerais. Então, a cidade onde comecei a carreira foi o meu destino neste período de descanso. Serão duas semanas que vão me permitir o retorno às raízes. A viagem entre o Rio e Pádua foi bastante cansativa. A bordo de um ônibus da Auto Viação 1001 – empresa monopolista do transporte rodoviário nesta região – desembarquei na rodoviária após mais de cinco horas de estrada, sendo um trecho bastante esburacado.

Após os primeiros contatos com a família, pude rever alguns amigos da década de 70. Sim. Somos do século passado. Ainda com 15 anos, descobri minha vocação para o jornalismo. Tudo era muito difícil. Não havia a tecnologia dos tempos atuais. Pelas mãos de João Batista Fonseca, fui apresentado a Geraldo Ivan de Andrade, dono do jornal O Porta Voz, que circulava na região e impresso no saudoso Gazeta de Notícias, no Rio.

Naquela mesma ocasião, João Batista e alguns empresários locais articulavam a concessão da primeira emissora de rádio para o município, que hoje se chama Rádio Feliz. O interesse do grupo não foi adiante porque vislumbravam uma emissora FM e o plano do governo militar era uma estação AM (Amplitude Modulada). Então, uma empresa de São Paulo ficou com a concessão.
 
O trabalho no Porta Voz consistia escrever alguns textos, acompanhar a impressão do jornal no Rio e retornar com o fardo à região para distribuí-lo. Ganhava uns poucos trocados. Estudava e trabalhava. Na mesma época, me aproximei do diretor de tv Wilton Franco, que é daqui da região, na TV Tupi (lembram?). A minha missão era levar personalidades para serem entrevistadas no programa da emissora carioca, no bairro da Urca. Foi uma experiência gratificante.

Depois, veio a Folha Paduana, de Astrogildo Milagres – um dos amigos de conversei na noite passada. Neste período, o jornalismo corria no meu sangue. Mas, o destino me mandou para o Rio de Janeiro. Lá, trabalhei como serviços gerais na Drogasmil, uma rede de farmácias da capital fluminense. Já era início dos anos 80, quando novamente João Batista me chamou para participar de um projeto do PMDB, partido que dominava a política regional naquela ocasião.

Larguei tudo e me mudei para Cambuci, vizinho a Pádua. A gráfica estava instalada num galpão onde coloquei uma cama e cai no projeto. Impresso numa antiga máquina de linotipo, as letras saiam após um processo de chumbo com antimônio. Era uma montagem artesanal, mas tratava-se da ferramenta daquela época. A impressão era página por página que depois eram encadernadas manualmente.

Com a edição fechada, seguia de ônibus fazendo a distribuição pelos municípios da região. Os exemplares causavam disputas de políticos e moradores. Era uma novidade. E foi na biblioteca de Cambuci que veio a reviravolta na minha vida. Uma amiga – Rita – me disse para cursar uma faculdade. Dizia que não teria muita chance se continuasse naquele trabalho. Precisava buscar novos horizontes. Como? Destino: Campos dos Goytacazes.

Final do governo João Batista de Figueiredo. Fiz vestibular para jornalismo na Faculdade de Filosofia de Campos. Passei. Não tinha emprego. Então, a sorte me sorriu mais uma vez. Encontrei Aloysio Cardoso Barbosa, proprietário do jornal Folha da Manhã, o melhor periódico daquele município. Impresso em off-set, tratava-se do produto de maior circulação. Então, tocava a faculdade e virei um “rato de redação”, ou seja, “morava” praticamente nas dependências do matutino. Não rejeitava as pautas.

Ainda naquela época, os textos eram redigidos em máquinas de escrever. As laudas de papel ficavam rabiscadas pelo trabalho de copy-desk. Não existia o Control C e Control V (copiar e colar). Muitas vezes, Aloysio não gostava do texto e jogava na sexta página (ou seja, a lata de lixo). Então, tinha de reescrever. Começar do zero. E com isso fui aprendendo. Queria ser um jornalista.

Nos fins de semana, cobria o Campeonato Carioca, os jogos do Americano e do Goitacaz. Aos domingos, os textos eram transmitidos para o Jornal do Brasil direto da agência dos Correios. Na máquina de telex o operador digitava a matéria que saia perfurada numa fita amarela. Depois, bastava transmitir aqueles sinais direto para a redação do JB na Avenida Brasil 500.

Foi neste período que iniciei uma relação de amizade com os jornalistas cariocas. Telmo Luiz Meira Wambier foi o mais importante deles para a minha carreira. Permitiu-me ser convidado para trabalhar como correspondente daquele periódico na região Norte Fluminense. Já me encontrava de mudança para Macaé, que ganhava destaque por sediar as unidades da Petrobras.

Naquela ocasião, passei a entender um pouco de infra-estrutura do país. Dividia o trabalho entre o JB e o semanário Folha Macaense – cheguei lá pelas mãos de Martinho Santafé. Já com o curso de Comunicação Social concluído, queria mais. E o mesmo Wambier me chamou para Niterói. Seria correspondente do JB. Foi um tempo melhor. A redação do jornal recebia a minha visita constante. A proximidade permitia isso. Lá, os mais importantes profissionais.

E com o grande amigo Wambier, segui para a Rede Globo, no Jardim Botânico. A Xuxa começava na emissora da família Marinho. Era 1986. As novelas eram gravadas no mesmo local. No Teatro Fênix, além de Xuxa, o Cassino do Chacrinha. Parece naftalina! Mas foi época de crescimento profissional. A impressora de linotipo ficará no passado. Na Rede Globo, a tecnologia era a melhor ferramenta.

Sai de lá em 1993. Mas conheci os maiores expoentes do jornalismo da televisão brasileira. Armando Nogueira, Alice Maria, Alberico Souza Cruz, Woiler Guimarães, entre tantos. Os equipamentos – mais modernos daquela época – eram as pesadas câmeras betacan. Fitas enormes. A iluminação para as gravações noturnas era feita pelo auxiliar. Uma equipe de tv contava normalmente com três ou quatro profissionais.

Somente com o advento das câmeras digitais é que o trabalho evoluiu. Hoje, os equipamentos são mais leves. Permitem filmar até com pouca luz. Da Rede Globo, retornei para o jornal nas mãos de Roberto Ferreira. Era o projeto de um jornal que dava destaque para as reportagens policiais. A Notícia braço do jornal O Dia para as matérias com maior quantidade de sangue.

Acabei então na rua Irineu Marinho 35, sede dO Globo. O trabalho na Agência Globo – empresa que distribuía o noticiário para os demais clientes – jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão do país. As famosas “marmitas” – um laptop com visor pequeno e de difícil manuseio (mas era a ferramenta da ocasião) – permitiam redigir as matérias e transmiti-las de algum ponto do Rio. Geralmente, na Bolsa de Valores, um prédio centenário na Praça 15.

A imprensa nacional já dava sinais de modernidade. O sociólogo Fernando Henrique Cardoso baterá o metalúrgico Luiz Inácio da Silva nas urnas e assumira o Palácio do Planalto. Era 1995. Fui convidado para trabalhar em Brasília como setorista da Agência Globo no Aeroporto Internacional Juscelino Kubitschek. A missão era entrevistar políticos e ministro de Estado que desembarcavam para uns dias de trabalho.

O governo Fernando Henrique vinha com o propósito de abrir o mercado ao capital privado. O timoneiro era Sérgio Motta, ministro das Comunicações, e principal aliado de FH. Nesta ocasião se nadava de braçadas. Eram notícias a cada instante. O mercado estava em polvorosa.  Os celulares permitiam um contato mais direto com a redação. Flash. Textos curtos.

Segui então nO Globo. A cobertura diária da movimentação de conglomerados interessados nas operadoras de telefonia, nas concessionárias de energia, nas rodovias, nos portos, na regulamentação do mercado de infra-estrutura do país. Havia interesses em tudo. Manchetes e mais manchetes. Os profissionais tinham os melhores equipamentos. O jornalismo brasileiro evoluíra bastante.

Já no segundo mandato de FH, naquela crise de energia elétrica, estava na sucursal de O Estado de S. Paulo. Depois, passei uns cinco meses no JB – já em decadência, com salários atrasados – e mudei de lado a partir de um convite para assessoria de imprensa do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Fiquei lá por quatro anos. Era uma situação inversa. Mas o convívio com os profissionais de assessoria me permitiu uma adaptação mais rápida.

O crescimento nesta fase foi importante. Estreitei laços de amizade com o ministro Edson Carvalho Vidigal que, em 2004 assumiu a Presidência do STJ. Foi um excelente período. Permitiu-me conhecer o país num trabalho de aproximar o Judiciário da sociedade.  Em 2006, uma experiência em campanha política no Estado do Maranhão. Após os resultados das urnas, retornei para Brasília.

O destino me colocou no caminho da Federação das Indústrias do DF (FIBRA), onde permaneço até os dias atuais. E quando sai de férias recebi uma intimação dos amigos Suzana Leite, Elton Pacheco e Patrick Selvatti, para que colocasse no blog um texto sobre a experiência profissional. Na passagem pelo Rio, quando estive com os amigos de O Globo, veio um pouco de inspiração.

Ontem à noite, ao verificar a minha trajetória, sentado numa mesa do trailer do Marcão, decidi acordar bem cedo. Já com o laptop ligado, percebi o quanto o jornalismo brasileiro evolui. E, como testemunha ocular, deixo aqui o meu relato como colaboração aos estudantes de Comunicação Social que queiram tomar conhecimento de um pedaço da história recente desta profissão.

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9 Respostas to “Retorno às raízes”

  1. Tim Ramsey Says:

    I recently came accross your blog and have been reading along. I thought I would leave my first comment. I dont know what to say except that I have enjoyed reading. Nice blog.

    Tim Ramsey

  2. Eliana Says:

    Você me surpreende a cada dia!
    Linda história. Alguns detalhes ainda desconhecidos.
    Sucesso! Sempre.

  3. Elton Pacheco Says:

    Nossa, confesso que li com muito orgulho esse post. Você é um cara genial, Roberto. Tem uma biografia muito bonita, admirável. Pelo texto, vi que muitos detalhes da sua história (veja a Drogasmil, por exemplo), você não conta. Está aí um bom motivo para se pensar em uma publicação, que, inclusive, já tem até nome “Diário de Bordo”. Pelo visto tem incentivo também: esse reencontro com os jornalistas da época e o retorno do bom filho à casa. Ou, até mesmo antes disso, um giro pelas universidades de Brasília para contar seus causos e pensar na divulgação do Diário. É desse Roberto que eu gosto! Do cara genial e com uma história de vida tão bonita. O mau humorado eu deixo de lá. Um abraço.

  4. Elton Pacheco Says:

    Correção:

    o mal humorado eu deixo de lado.

  5. suzanaleite Says:

    Lindo texto. Que experiência. Nossa… estou sem palavras. Apesar da pouca tecnologia, acredito que vc tenha vivido o jornalismo de verdade. Aquele que não volta mais. Parabéns! Não é qualquer um que tem um currículo desses. Mas, por favor, não pare por aí. Comece a contar as histórias do dia-a-dia. Aquelas que não esquecemos mais. Pautas difíceis. Fontes secretas… Será uma leitura muito agradável. Ah… boas férias. Suzana Leite

  6. Roberto Cordeiro Says:

    Elton, as férias melhoram o humor de qualquer cidadão mal-humorado. Obrigado a todos pelos comentários. Então, isso me estimula a contar mais causos e acausos…

  7. Márcia Elisa Rembowski Says:

    Nossa, achei sua história rica em experiência e de uma determinação impressionante, afirmando somente que nossa vida já vem escrita, é só seguirmos o caminho certo.Parabéns,sempre achei que tinha nascido para ser jornalista e hoje com 40 anos, 3 filhos e uma separação tumultuada ainda acho que posso realizar este projeto de vida que para mim é uma questão de identidade pessoal (se é que você me entende).muito sucesso para você sempre.Se possível me retorne, você é tudo de bom.Abraços.

  8. junia magalhaes de almeida Says:

    Prezado Robrto:

    Ficou Bonito o colorido. Destaca bem as palavras. Quanto as intruções muito obrigada. Estava louca procurando aquele nunicipio muito louco durante as eleições.
    sds
    Junia

  9. Hilton de Abreu Marinho Says:

    G A R R A!
    É a palavra.
    O que Você faz atualmente?
    Continue aguerrido; tenha ética sempre e coragem.
    Como o mundo precisa de gente assim (mormente o nosso querido Brasil com seus “políticos burros” que perderam o tato e a visão e não sentem a areia movediça em que estão metidos…)!!!
    VITÓRIA!

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