Os anjos

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O jornal O Diário do Norte Fluminense, de Campos dos Goytacazes, na edição desta terça-feira (30), publica artigo Os Anjos, deste blogueiro, que reproduzo aqui neste espaço. A nossa família passa por um momento de intensa emoção. A necessidade de domar um leão por dia. Mas, o Pai está sempre em observação e saberá a condução de seus filhos.

Os anjos

Roberto Cordeiro, jornalista formado pela FAFIC

O coração bateu mais forte quando o ônibus estacionou no Shopping Estrada. Após uma viagem que saiu do Rio de Janeiro, chegava a Campos dos Goytacazes, cidade que tenho uma relação muito carinhosa. Nela, passei um bom tempo de minha vida: formei em jornalismo (Bacharel em Comunicação Social), conquistei amigos e suas amizades que vão até os dias atuais. Passei outras vezes pela cidade. Com os presidentes do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Nilson Naves e Edson Vidigal e em visitas aos meus familiares que fincaram raízes nesta querida terra.

Num dos restaurantes da rodoviária fiz a única refeição daquele dia. Já era bem tarde. Enquanto aguardava o churrasco, percorri, numa viagem ao tempo. Do dia em que cheguei nesta cidade para concorrer a uma das vagas no vestibular da Faculdade de Filosofia de Campos (Fafic) e percorri alguns caminhos para trabalhar e assim assegurar o meu sustento. Fui acolhido carinhosamente por muitos colegas que se tornaram exemplos de profissionais para mim. A minha formação como repórter tem muito daquilo que aprendi nesta cidade.

O destino quis que seguisse por caminhos diferentes. Mas, jamais abandonei os sábios conselhos. Os mesmos conselhos também recebi na Faculdade nos anos 80. Os professores e alunos daquela época habitam minha memória que é ressuscitada naquele fim de tarde. Dos olhos, algumas lágrimas insistem em escorrer pela minha face. A fadiga. O cansaço. Meu corpo encontra-se entregue à viagem. Então, após o último gole de uma cerveja gelada, respiro, pago a conta e rumo até o ponto de táxi.

O carro segue pelas ruas da cidade. Até o Parque Califórnia – meu destino – deparo com o trânsito não tão bucólico como outrora. Aliás, a cidade se agigantou. As pessoas não se conhecem mais. Se estranham. Carros disputam cada milímetro do asfalto. E percebo onde estou quando avisto alguns pedaços de cana-de-açúcar espalhados pelos paralelepípedos. As ruas, alguns trechos esburacados. Nem tão diferente de outras cidades brasileiras.

No portão, sou recebido por minha mulher Eliana Buchaul. Há uma semana não nos víamos. Ela embarcara às pressas para o reencontro com a família. O patriarca Paulo estava acamado e necessitava da presença dos filhos. Internado na Sociedade Portuguesa de Beneficência de Campos (SPBC), o guru da família resistia como um leão às dosagens forte de remédio. Os funcionários daquele hospital – dos mais humildes aos mais graduados doutores – tinham a ele num bom lugar. O tratamento carinhoso dos servidores foi como um bálsamo para enfrentar os dias acamados.

No dia seguinte, dediquei-me a uma demorada visita. Ficamos juntos por cinco horas. No leito, dizia palavras de incentivo, algo muito normal e corriqueiro para quem convive com Paulo Buchaul. Mas, uma citação marcou aquele encontro e seguiu martelando minha mente por vários dias: os anjos. Olhei para os céus para entender que os anjos ele queria ver como prenuncio dum suspiro.

Mas, o corpo – apesar de receber fortes doses de medicamentos e de ter sido submetido aos mais diversos elementos quimioterápicos – insiste em seguir conosco. Claro, ele tem alma. Tem o carinho da família. O violão dedilhado pelo filho mais velho. O coral entoando antigas canções faz uma alegria só.

Lembro que na manhã daquele domingo tomei a pé a Rua Alberto Lamêgo, segui pela Rua Sete de Setembro até desembocar na Boulevard Francisco de Paula Carneiro – a Rua do Homem em Pé – com destino à Catedral de São Salvador. A cada passo, em oração me colocava, com lembranças ainda recentes do encontro com Paulo. No interior daquele templo, prostrei-me na primeira fileira. Conversei com o Pai e São José – de quem sou devoto.

Minutos mais tarde, fiz o caminho de volta. E os anjos?  Ah! Os anjos são aqueles seres que nos protegem. Nos guardam. O tempo passou veloz. Retornei a Brasília e, quando deram por minha falta, já estava aqui no Planalto Central. Tentando aplicar no meu dia-a-dia os ensinamentos que recebi da família e dos amigos. E, em especial, do guru Paulo Buchaul, o nosso anjo.

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